sexta-feira, 16 de outubro de 2009

10 prescrições da medicina contemporânea

Sempre fui contra doenças, assim como sou contra a morte de pessoas legais, contra terremotos, ciclones e tissunames. Acho que tudo isso atenta contra a grandiosidade e a dignidade da espécie humana. Protestarei até o fim contra esse tipo de barbárie.
As doenças, contudo, parecem-me hoje o mais sombrio dos flagelos. Isso porque cheguei a ter esperanças de que nossa inteligência fosse realmente capaz de aplacá-las. Nutria uma ingênua admiração pelos doutores que em minha fantasia, com seus trajes brancos e estetoscópios pendentes, perdiam noites e noites tentando decifrar as sórdidas armas com que as moléstias insidiosas nos acometiam cada vez que praticávamos aquilo que é mais humano em nós: os excessos, os vícios e a auto-destruição necessária ao viver.
Infelizmente constato que o nosso alvo exército rendeu-se ou foi cooptado. Após o longo percurso desde Hipócrates, as 10 principais prescrições da classe médica são hoje:

1) jamais fique doente, especialmente se não puder pagar o convênio ou se for conveniado;

2) se ficar, pare imediatamente com o cigarro, a bebida, os carbo-hidratos e faça exercícios leves. Caso seja particular, guarde um tempo para você.

3) não é possível saber exatamente qual é a sua doença, mas trata-se de uma doença idiopática;

4) seja qual for, a probabilidade de ela te matar é de 50%;

5) tome esse remédio desse parceiro e vamos repetir o exame nesse laboratório;

6) sempre há risco, mas é melhor operar;

7) sem o meu anestesista e o meu instrumentador é provável que você morra na cirurgia;

8) o plano não cobre, mas eu divido em três cheques;

9) quando eu não sou o plantonista do hospital, o plantonista costuma preferir que você morra.

10) o que era possível fazer foi feito, agora está nas mãos de Deus.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Rio 2016

Não vejo como não comemorar a escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016. Faz bem para a auto-estima brasileira; ajuda na cura do nosso complexo de vira-latas; ambienta o esporte mundial num cenário de encantos mil; desafia nossa capacidade de fazer bem feito e trás perspectivas reais de dividendos.
Creio, porém, que o melhor de tudo isso seja o estímulo para que pensemos nos incontáveis problemas do Rio de Janeiro de uma maneira diferente da que já se tornou costume: não se trata agora de simplesmente constatar, lastimar e comentar a gravidade da violência e das distorções sociais da cidade. Será preciso encontrar e praticar soluções. E será necessário fazer isso tudo até 2016.
Ainda que de forma mais ou menos colonizada, o fato é que temos prazo para executar a tarefa, nem que seja tão somente porque o mundo inteiro vai cobrar isso de nós. Uma nação segura certamente não esperaria esse estímulo externo, mas sejamos auto-indulgentes com isso.
Penso que na puberdade de suas tensões políticas e, consequentemente, eleitorais, a classe dirigente do país tenha perdido - se é que chegou a ter - a capacidade de planejamento para além de seus mandatos. E penso também que, fora do contexto revolucionário, sem planejamento de médio e longo prazo, não há solução.
Sendo assim, me anima imaginar que os gestores públicos tenham que atuar agora, obrigatoriamente, de acordo com uma agenda que não seja exclusivamente a dos seus próprios compromissos políticos. Mudem ou não os quadros e os partidos dos governos federal, estadual e municipal, existe uma contingência clara e maior: tornar o Rio de Janeiro uma cidade capaz de recepcionar os Jogos Olímpicos em 2016.
Lembro, então, ainda que essa coisa de superação de limites físicos não chegue a me fascinar, que os conflitos entre as cidades-estado gregas eram suspensos por ocasião das Olimpíadas e tornava-se crime sem limites, por exemplo, danificar as oliveiras da cidade inimiga. Talvez o exemplo valha como metáfora para as rivalidades políticas do Brasil de 2009 a 2016.
Toda essa argumentação, contudo, arrisca ser falaciosa se o empenho pelos Jogos Olímpicos do Rio restringir-se a medidas cosméticas, temporárias e enganosas. Mas se isso aontecer, a culpa será nossa.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sinuca de Tegucigalpa

A Diplomacia brasileira pecou pela boa fé.
Digo logo que não creio na conivência do Itamaraty com a estratégia de retomada do poder de Manuel Zelaya, presidente eleito e deposto de Honduras.
Não acho realmente que fazer da Embaixada brasileira o QG do contra-golpe em Honduras tenha sido um plano conjunto. E não acho, simplesmente, porque isso não seria nada inteligente, especialmente para quem pretende robustecer o papel do Brasil como árbitro das questões regionais. As consequências disso seriam, como já são, desgastantes e pouco capitalizaveis para o plano maior.
Mas penso que houve uma certa leniência para com a questão cuja razão remonta a um problema que deve ser melhor examinado pelo nosso governo.
Durante muito tempo, pessoalmente, também imaginei que a afinidade ideológica com os parceiros era motivo suficiênte para seguir despojado e adiante com projetos que pareciam conjuntos. Com o avançar dos anos acabei percebendo que, também entre camaradas, havia vaidade, preconceito, burrice, pequenez e trapaça. A contatação custou-me amigos e dinheiro, causando-me muito pesar e, depois, alguma revolta.
Não tenho certeza, ainda, de que o mesmo esteja ocorrendo com a nossa diplomacia no caso de Honduras, mas suponho que tenhamos sido ludibriados por conta da boa fé de nossos diplomatas.
Não os condeno, ao contrário, sou cúmplice de seu infortúnio. Mas espero daqueles que dedicaram sua vida a essa tarefa, que sejam mais rigorosos em seus critérios quanto às nossas posturas internacionais.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Reforma Política

No debate nacional sobre a chamada "Mini Reforma Política" fiquei contente ao saber que algumas cabeças mais arejadas conseguiram reverter as proibições quanto ao uso da internet em campanhas políticas. Lamento, porém que a argumentação dos intrépidos combatentes restrinja-se apenas a questões como o barateamento dos custos de campanha e o direito democrático à livre expressão. Estou esperando, porém, alguém que trate do caso com mais profundidade e com mais engenho.
Acredito que exista sobre isso um certo distúrbio de visão. Não me considero, nem de longe, um dos entusiastas da Internet. Esconjuro o engajamento que faz ver na "rede" o caminho da redenção. Apenas entendo que hoje, um grante contingente da população mundial - especialmente o mais jovem - simplesmente "vive", boa parte de sua vida, em comunidades virtuais. Não estou dizendo que se "comunicam" pela Internet, estou dizendo que dedicam sua "existência concreta" às relações propiciadas pela rede.
Estou falando de um tempo em que a Internet não é apenas meio de comunicação como o rádio e a TV. Pensar assim é o prenúncio do conflito entre as gerações.
Entendo que, simplesmente, existe hoje uma desterritorialização da experiência humana. Se gosto ou não disso, resolvo com o meu analista. O fato é que as pessoas fazem amigos, negócios, tarefas, compras e sexo num não-local. Para muitas pessoas, os buracos das ruas importam menos do que a qualidade da conexão naquele espaço e isso é uma preocupação da vida real. Quer dizer: pessoas vivem de verdade no que poderíamos chamar de não-território e, nem por isso, são menos pessoas.
Vivendo, realmente, no não-espaço, é de se esperar que também alí a política - ou seja lá o novo nome que queiramos dar à acomodação dos conflitos humanos - aflore como sempre ela aflorou onde pessoas convivem.
Esse é o distúrbio de visão: liberar a Internet como meio de comunicação política não significa entender sua dimensão como novo local de vivência humana e, portanto, de consequencias políticas.
Aguardo alguém que perceba a gravidade da questão.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Escrever no seu blog é quase sempre jogar dúvidas e certezas ao vento.
Que seja. Gosto de pensar, contudo, que existe algo entre a dúvida e a certeza e que o vento, quando menos, espalha. Às vezes semeia.
Nem sempre sabemos o que dizer. Raramente a quem dizer.
Que seja. Gosto de dizer o que ainda não sei e gosto de pensar que, às vezes, sei o que digo mesmo assim. Não me importa que não saiba a quem digo, dizer a quem não sou eu mesmo já me conforta.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Como criar uma Teoria da Conspiração

1.Elege-se um tema sobre o qual já existe um senso comum. Um assunto que dispense apresentação ou maiores esclarecimentos. Parte-se, assim, de uma temática cujo entendimento o publico julga possuir, embora não seja capaz de identificar sua fonte.

2.Desenvolve-se uma teoria em que o senso comum, da maneira como está instituído, corrobora interesses de um determinado grupo de agentes que conspiram para evitar que a verdade venha a tona. A teoria não é apresentada ao público.

3.Sem atacar frontalmente o senso comum e com isso promover a retração do público que se abrigará em suas convicções - mesmo que precárias - inicia-se um cauteloso processo de questionamento. Incute-se a dúvida sutilmente no público, sugerindo, com exemplos contrários, que talvez a verão conhecida não seja totalmente verdadeira. Utilizam-se aqui os mais diversos truques retóricos, ou aquilo que Arthur Shopenhauer classificou como Dialética Erística.

4.Apresenta-se a dificuldade em conseguir informações que permitam construir uma outra explicação para a questão. Ao mesmo tempo evidencia-se a presença de um ou mais membros da conspiração nos episódios que envolvem o tema.

5.Os agentes externos são radiografados e seus interesses são revelados. Apresenta-se uma nova teoria explicativa para o fenômeno. Segundo a nova teoria, os agentes são os grandes responsáveis pelo embotamento do público

6.Mostra-se a coincidência entre o senso comum sobre o tema e os interesses dos conspiradores. Apresenta-se também a capacidade do agente de influenciar a opinião pública e de promover a cristalização da versão consagrada e interessada.

7.Reforça-se a dúvida no público fazendo-o sentir-se tolo e manipulado.

sábado, 29 de agosto de 2009

Camarada Moscou

Quando criança não nutria muita simpatia por gatos. E, desde criança, menos ainda por pessoas que os maltratavam.
Passei a gostar deles quando, em meu romance Rafael Descobre Tudo, apareceu o Sr. Tolstoi, um gato cuja raça não sei se cheguei a definir. A simpatia pelo meu próprio personagem motivou-me a adotar Havana, uma linda e geniosa gata siamesa. Embora Havana já morasse comigo há algum tempo, foi Polyana, minha mulher, quem me fez conhecê-la e me apaixonar definitivamente por elas e pelos gatos. Acho que entendi sua complexidade, aprendi a respeitar seu tempo, apreciar seu engenho e desfrutar intensamente de seu carinho.
Vivemos um tempo no meio do mato, só os três. Ainda não conheço linguagem que me permita compartilhar o que foi aquilo. Voltamos porque sim.
Em São Paulo outra vez, passamos a pensar que Havana precisava também de uma companhia da sua espécie.
Um dia, em visita familiar, minha mãe narrou seu estranhamento quanto a um miado que parecia vir do motor de seu carro. Levou-nos, então, ao quintal e mostrou-nos uma gatinha suja e cheia de marcas da rua que, realmente, alojara-se no motor de seu carro e agora milagrosa e tranquilamente tomava um pouco de leite num potinho de manteiga adaptado.
Sem que precisássemos falar a respeito, no dia seguinte já estávamos, Polyana e eu, tentando socializar Misk e Havana no terraço de nosso apartamento.
Algumas semanas depois, Moscou e Havana pareciam irmãos ou amigos de velha data. Já sabíamos, então, que Moscou não era uma gatinha.
Isso tudo aconteceu faz quase dois anos. Moscou virou um gato grande, belo e forte. Um camarada gentil, humilde, sensível e sábio como poucas pessoas um dia serão. Um companheiro dos que desejo a todos os meus poucos companheiros.
Soubemos, essa semana, por conta de um prolongado acabrunhamento, daqueles que entendo e respeito, que o Moscou está com Leucemia. É virótico e contagioso. Provavelmente a Havana também esteja, embora pareça mais altiva.
Não sabemos nada do futuro, mas agora a tristeza é triste, triste, triste mesmo. Como era triste abandonar uma deliciosa brincadeira no tempo em que eu era criança e não nutria muita simpatia por gatos.
Quando penso nas coisas bonitas da vida que quero apresentar para a minha filha que está chegando não sei bem de onde, penso que o Moscou é uma delas.
Combinei com o soldado Moscou que ele não pode vacilar nessa missão. Mas, se ele não conseguir, condecoro meu camarada, mesmo assim, com as mais altas honrarias.